Há alguns anos, ouvi um pregador ilustrar seu sermão com uma história realmente impressionante. Ele contava que, ainda na época das chamadas “grandes navegações”, um renomado almirante recebeu de seu rei a incumbência de tomar posse de uma ilha isolada, que ainda não havia sido ocupada por nenhuma nação. Munido de uma esquadra bem equipada, o homem partiu em direção à sua missão.
Os navios logo chegaram ao seu destino, mas a ordem dada pelo comandante foi clara: ninguém deveria desembarcar. Todos os navios deveriam permanecer a certa distância da costa, enquanto apenas um pequeno bote, levando o almirante e mais dois ajudantes, aportaria em terra firme.
O objetivo de tal ordem só seria entendido mais tarde. É que o almirante, um apaixonado colecionador de borboletas, queria aproveitar a rara oportunidade para enriquecer a sua coleção com alguns exemplares exóticos, os quais poderiam ser facilmente afugentados com o desembarque de todo o seu efetivo.
Um dia inteiro se passou enquanto o ávido colecionador se embrenhava mata adentro, silenciosamente, deslumbrado com a quantidade e a variedade de espécies que acrescentava à sua coleção. Entretanto, toda a sua euforia se transformaria em frustração, tão logo ele retornasse à costa: durante todo o tempo em que o comandante caçava borboletas, seus homens e seus navios assistiam, à distância e sem oferecer qualquer resistência – por força da ordem que havia recebido – a ocupação da ilha por uma esquadra de outra nação...
Não sou capaz de apontar maiores detalhes da história, nem de situá-la mais precisamente no tempo e no espaço. Entretanto, é evidente que ela ilustra o caso de alguém que colocou a ambição pessoal acima de sua missão, priorizando interesses particulares em detrimento dos interesses nacionais, e apropriando-se indevidamente dos recursos que lhe haviam sido confiados pelo rei, com uma missão a ser cumprida, para obter proveito próprio. O resultado trágico desse desvio descabido foi o prejuízo de toda uma nação.
Muito tempo já se passou desde a época das grandes navegações, mas certamente a prática suja, ilícita e pecaminosa de colocar a ambição acima da missão ainda pode ser vista em larga escala, como os brasileiros têm podido testemunhar. Descobrimos, para nossa vergonha e tristeza, que aqueles a quem confiamos o governo deste país – e os poderes e recursos inerentes a essa prerrogativa – têm usado cada milímetro de seu espaço e cada gota de sua influência para obter vantagens pessoais, esquecendo-se do real motivo pelo qual foram colocados em suas posições: servir aos interesses da nação. É tanto escândalo que já nem nos lembramos mais de coisas como o chamado “mensalão”, a “máfia das ambulâncias” e tantas outras notícias que nos fazem pensar: para onde foram as bandeiras ideológicas e os ideais partidários? Tudo parece sugerir que há ainda muito mais a ser descoberto, que a sujeira debaixo do tapete apenas começou a ser encontrada e exposta.
Embora possamos e devamos condenar tais atitudes na carreira política, é fundamental mantermos diante de nossos olhos, em cores vivas, a verdade de que nós também estamos sujeitos às mesmas tentações na carreira cristã, e devemos tomar o máximo de cuidado para não cairmos nos mesmos erros. O apóstolo Paulo nos adverte que os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada, desviando-se da fé (1 Timóteo 6.9). Que nenhum soldado em serviço deve se envolver em negócios desta vida, pois seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou (2 Timóteo 2.4). E, em cada uma dessas recomendações, encontramos o eco das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mateus 6.24).
Antes de qualquer coisa, portanto, todo cristão deve se lembrar de que foi chamado para servir a Deus, e é essa a sua primeira e maior missão. Por isso mesmo, toda ambição pessoal deve ser refreada e submetida ao crivo da Escritura, ou jamais poderá contribuir para o desempenho fiel da missão que Deus nos confiou. Que os exemplos da história e a realidade brasileira presente nos sirvam de alerta, e que as divinas advertências da Escritura nos sejam um guia seguro para que possamos manter esse mal sempre afastado de nossa própria história.